Passado um ano das mortes de três homens dentro da reserva indígena Parakanã, em Novo Repartimento, no sudeste do Pará, o clima é de tensão na região. Familiares cobram a prisão dos responsáveis pelo crime e a falta de respostas afeta ainda os indígenas, que sofrem com hostilidade de parte da população. A Força Nacional atua na área desde a última sexta-feira (21).
Em 24 de abril de 2022, os três homens desapareceram na área da Terra Indígena Parakanã, distante cerca de 30 km do centro de Novo Repartimento. Autoridades fizeram buscas e no dia 30 de abril, três corpos foram encontrados na Reserva Indígena e foram velados na Câmara Municipal.
Segundo o Ministério Público Federal (MPF), os três entraram na reserva para caçar. As famílias negam. A Polícia Federal segue investigando o caso sob sigilo e não revelou se algum suspeito foi identificado no inquérito, que está em fase de conclusão.
"Serão realizadas últimas oitivas com acompanhamento de antropólogo da Funai. Está sendo realizado estudo antropológico, conforme recomendação do Ministério Público Federal e acatada pela Justiça Federal. Após, o inquérito será relatado e encaminhado para a Justiça Federal e MPF", informou a Polícia Federal em nota.
Até esta segunda-feira (24), as famílias não sabem ao certo como os três foram mortos e realizam atos na cidade. Na noite de domingo (23), balões foram soltos em memória das vítimas: Cosmo Ribeiro de Sousa, de 29 anos, José Luís da Silva, Teixeira, 24 anos, e Willian Santos Câmara, de 27 anos. "A gente só quer que prendam o assassino. A Justiça está demorando demais e para mim, como mãe, dói demais", afirmou Maria Gorete, mãe de José Luís. Homenagens estão sendo feitas há uma semana.
Clima de 'hostilidade' - Com medo de hostilidade por alguns moradores da cidade, os indígenas Parakanã evitam circular no centro urbano, segundo a antropóloga da Comissão de Defesa dos Direitos Humanos D. Paulo Evaristo Arns, Manuela Carneiro da Cunha, que se encontrou este mês com lideranças indígenas. A Comissão Arns reforçou com autoridades federais e estaduais a situação na área.
"Essa hostilidade os impede de frequentar a sede do município, isso é: nem saúde, nem comércio, a ponto que os que estudam não saíram para se matricular, alguns professores do primário não indígena não vão mais. A hostilidade se estende até a indígenas que não têm nada a ver com os Parakanãs", detalha a antropóloga.
A Federação dos Povos Indígenas do Pará (Fepipa) já havia relatado ameaças contra os indígenas ainda em maio de 2022. O Ministério Público Federal (MPF) interviu e pediu atuação da Força Nacional, que foi reforçada na região desde sexta-feira (21). Segundo o advogado das famílias dos três mortos, Cândido Júnior, a presença da Força Nacional na região aumenta a tensão. “Já tinha um apoio da Força Nacional e, então, o acúmulo desses agentes aumenta uma tensão que, na verdade, não há. Eu acho que o momento mais conflituoso já passou”, disse.
Em nota, o Ministério da Justiça e Segurança Pública informou que "o efetivo da Força Nacional já se encontra na região desde a última sexta-feira (21) e que não houve intercorrências na chegada dos agentes".Ele também informou que a mãe de uma das vítimas é professora e atuava em uma das comunidades indígenas, mas não dá mais aula no local. A reportagem pediu informações à prefeitura de Novo Repartimento em relação às aulas dos indígenas e aguarda retorno.
Questionada, a Polícia Federal não informou detalhes sobre o inquérito, nem sobre suspeitas. Segundo o advogado da família, a suspeita é que os três foram enterrados amarrados e vivos. Os corpos não tinham sinais de tiros ou perfuração de armas brancas. No entanto, o advogado das famílias aguarda conclusão da investigação para haver certeza do que ocorreu.
O desejo de que a situação seja resolvida é o mesmo entre os integrantes da Comissão Arns. “É muito importante que isso seja resolvido. O que a gente espera é que a Justiça seja feita nos trâmites adequados pelo Estado e que a relação de vizinhança entre os indígenas da terra Parakanã e outros habitantes da região seja restabelecida'', disse a antropóloga Manuela Cunha.
Ainda em 2022, a Fundação Nacional do Índio (Funai) disse que "ao ser informada sobre o possível desaparecimento de caçadores na Terra Indígena Parakanã (PA), acionou os órgãos de segurança pública". A reportagem procurou a Funai nesta segunda-feira (24) e não obteve retorno.
Já a Secretária de Segurança Pública e Defesa Social (Segup) disse que "as forças de segurança pública estão reforçando as ações ostensivas em Novo Repartimento, garantindo a ordem e segurança e aptos a atuar em qualquer situação pontual no entorno da reserva indígena. A Segup diz ainda que, as ações no interior da área da reserva são de responsabilidade federal".
Autor:AMZ Noticias com G1